2007-02-04 06:11:55
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O Zen e a arte cavalheiresca da programação orientada a objeto (Parte 12)

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E estamos de volta, amigos, em dia de Superbowl (você nem precisa gostar do esporte, mas assistir à final é quase uma obrigação. Os comerciais mais esperados do ano são exibidos durante o evento, o show do intervalo vai ser de Prince, e quem ainda não ouviu o comentarista da ESPN de futebol americano não sabe o que está perdendo - é a coisa mais engraçada da televisão brasileira). Mas nós não estamos aqui para falar de futebol americano, não é? Nosso assunto de hoje, isso sim, são gnomos!

Os gnomos, como todos sabemos, são criaturas lendárias que geralmente usam chapéus ponteagudos e barbas enormes. Presentes na mitologia européia e nos jardins de muitas pessoas de gosto duvidoso, nossos pequenos amigos têm a fama de ter poderes mágicos e de viajar pelo mundo.

Muito bem, caros leitores, chegou finalmente a hora de revelar a todos o porquê da presença desses furtivos seres em nossa história. O que têm em comum, afinal, os gnomos e a programação orientada a objeto?

(rufar de tambores) (trilha de "psicose") (silêncio absoluto)

A resposta é muito simples. Absolutamente nada.

Mas peraí! Peraí! Antes de pegar os ancinhos, enxadas e outras ferramentas agrícolas e se dirigirem até minha casa bradando "IMPOSTOR! IMPOSTOR! MORTE AO IMPOSTOR" preciso de algumas linhas para me explicar.

Dentro da minha filosofia "PHP de Rua®" procuro sempre usar metáforas para explicar alguns conceitos que considero mais complexos. Ok, algumas dessas metáforas não são tão interessantes assim, mas acho que algumas já ajudaram alguns de vocês a compreender um pouco mais do assunto em pauta. Os gnomos, meus caros, são mais uma dessas metáforas, como vocês já devem ter percebido.

A idéia de usar os gnomos me veio à cabeça quando comecei a entender melhor o conceito de "manager" em orientação a objeto. Muito bem, vamos recapitular um pouco pra lembrar alguns conceitos importantes. Todos se lembram que definimos classes para Automóveis, Seres Humanos, e outros objetos? Agora quero pedir que vocês procurem ver uma característica que todas essas classes têm em comum, do ponto de vista conceitual: todas elas são criadas a partir de objetos que, de um modo ou de outro, são coisas de verdade no mundo real. Um automóvel existe como "coisa" tanto abstratamente quanto concretamente. Não sei se vocês estão entendendo, mas talvez ajude dar um exemplo de alguma coisa que não exista na realidade para que fique mais claro.

Na nossa série temos focado em um tipo de modelagem chamada "Real World Modeling", ou modelagem do mundo real. Ou seja, sempre que falamos de classes e objetos, falamos de alguma coisa que efetivamente existe no "mundo real". Automóveis e Seres Humanos são exemplos disso. Poderíamos falar também de Registros (de um banco de dados) ou Fichas de Cadastro; mas sempre partimos de uma "coisa" que já existe na realidade, um conceito pré-existente. Sempre tive mais facilidade de entender este tipo de modelagem; é o que me parece mais lógico. Mas, como vamos ver, muitas vezes em programação orientada a objeto um sistema é modelado usando conceitos que não são reais, ou melhor dizendo, usando conceitos que são criados somente para o sistema que se está desenhando.

Os Controllers, peça fundamental do design pattern MVC, são justamente um exemplo deste problema. Explico: é fácil imaginar que um sistema de gerenciamento de blogs tenha as classes Post e Comment, pois no mundo real estes ítens são componentes de um blog. O conceito de Controller, no entanto, jamais apareceria se nós tentássemos encontrá-lo simplesmente olhando um blog. Trata-se de uma classe criada a partir de uma metáfora de uso criada especificamente para resolver um problema de programação. Na prática, estas classes são normalmente muito importantes em um sistema, e ao mesmo tempo são as mais difíceis de criar, já que não têm uma contrapartida no mundo real.

Mas muito bem, ok, já entendemos que os tais Controllers são diferentes dos outros objetos, mas o que eles são exatamente? Aha, aí é que está. Eles são gnomos, amigos. Criaturas imaginárias que fazem coisas pra nós. Eles recebem ordens e as executam, não recebem salário e não reclamam (bom, se a gente programa tudo certo eles não reclamam).

Os Controllers são fundamentais no modelo MVC, pois são os responsáveis por receber as ordens, ou requests, dos usuários do sistema, interpretá-las e mandar novas ordens para que outras classes executem seus métodos. Eles mandam no pedaço. São os reis da cocada preta. Os maiorais.

Muitos de vocês talvez já saibam que existem dois métodos muito importantes para se requisitar (request, sacou?) coisas quando no protocolo http. Eles são os superpoderosos GET e POST. O método GET pode ser visto na maioria dos sites, é só procurar uma url que tenha uma interrogação. Nesse tipo de request o pedido é feito na própria url, passando muitas vezes pares de variáveis separados por um & (e comercial). Um request GET típico seria:

http://www.google.com.br/search?q=oop

Este request, como vocês podem imaginar, está passando a variável "q" com o valor de "oop" para o sistema. Tudo bem simples e trivial.

Um request post é muito parecido. Na teoria, estes requests teriam funções diferentes, o primeiro para "pegar" informações do servidor e o segundo para "colocar" ou "postar" informações lá. Mas, na prática, essa regra não se aplica muito, a coisa é bem misturada. Para nós, essa distinção não é importante, e para um Controller de verdade ela também não deveria ser, já que queremos que esse gnomo entenda qualquer tipo de ordem que o usuário passe para ele.

Esse é exatamente o ponto. Um controller "recebe" ordens, ou requests e executa métodos de acordo. Ou seja, qualquer request que chege em nosso site irá ser tratado por um gnomo, ou Controller, que irá dizer para modelos e outras classes "ei, você, post número 25, apareça aqui que o usuário quer editá-lo!" ou "Ei template Lista de Posts, tome aqui esta lista de posts e desenhe-se na tela". Em um sistema que implementa autenticação de usuários, por exemplo, os Controllers perguntariam "Ei, autenticador, este cara aqui pode editar este post?" e coisas assim. Deu pra entender?

Até a próxima. Alguém aí já está se coçando pra escrever algum código? Calma, gafanhoto... Ainda temos que decidir que gnomos precisamos. Vejo vocês por aí. Grande abraço.

10 Comentários:

[Nelson]  Gostei dessa abordagem de controllers como criaturas imaginárias, nunca tinha visto alguem relacionar controllers ou algo desse tipo com alguma coisa que existe (afinal, tem doido que ve gnomos por ai).  [REPLY]

[Thiago Bernabé]  Vamos logo escolher nossos Gnomos !!!  [REPLY]

[Marco Gomes]  "A resposta é muito simples. Absolutamente nada." Eu quis MESMO arrancar seus olhos com um garfo quando li isso...  [LINK]  [REPLY]

[danilo]  Valeu Nelson! Grande Abraço!  [REPLY]

[danilo]  hahahhahahaha valeu marco! grande abraço!  [REPLY]

[danilo]  Vamos nessa Thiago! Abraço

[Rafagd]  Legal vc ter falado em posts anteriores que dá pra tirar as queries do código... dae eu fiquei me perguntando como vc faz essa mágica ae XD  [REPLY]

[Faculade de Teologia]  Muito legal esse blog!  [LINK]  [REPLY]

[Junio]  Um grande abraço!

[Rogerio]  Estou impressionado com a didatica usada por você. Parabéns, Muito boa mesmo. Espero que o restante seja tão bom quanto o que foi escrito até aqui.  [REPLY]